Bispo católico angolano avisa para risco de “revolta social” com aumento da eletricidade

O bispo católico da província angolana de Cabinda considerou hoje, que as novas tarifas de eletricidade, em vigor a partir desta segunda-feira, vão “inflacionar os preços de vários serviços”, receando uma “revolta social” devido aos “impostos sufocantes”.

Segundo Belmiro Tchissengueti, a medida do Governo angolano, em vigor a partir de hoje, “contrasta com a atual redução ou estagnação da qualidade de vida dos cidadãos”, porque os cidadãos “vão pagar mais” pela energia que consomem.

“De forma que vão ter o combustível a subir, também pelo que se tem ouvido, aliás já sentimos em todos os cantos as exigências, relativamente, aos impostos onde há um crescendo, mas há uma redução ou estagnação na qualidade de vida”, disse hoje o prelado, em declarações à Lusa.

“Temos de também de ter em conta que, apesar da dificuldade que se vive, fruto da má gestão do erário público, na verdade os pobres são sempre os mais prejudicados, porque subindo a energia vai subir o preço do táxi, das moageiras e vai subir uma série de serviços com bastante descontrolo”, alertou.

As novas tarifas de eletricidade entram em vigor hoje em Angola, com as autoridades a assegurarem manutenção dos preços para consumidores da “categoria social”, com capacidade reduzida de consumo, e aumento para metade aos da categoria “doméstica especial”.

De acordo com o novo tarifário de energia, os consumidores da categoria social, com capacidade reduzida em termos de consumo, vão continuar a pagar 2,46 kwanzas/quilowatts, enquanto para os de consumo baixo de 200 quilowatts o valor sobe de três kwanzas (0,008 euros) para 6,41 kwanzas (0,016 euros).

Em relação a categoria “doméstica geral”, agora designada “categoria doméstica monofásica”, que integra a maioria dos consumidores de eletricidade em Angola, passa agora dos 6,53 kwanzas (0,017 euros) para 10,89 kwanzas (0,027 euros).

Para os clientes da categoria “doméstica especial”, agora designados por categoria “doméstica trifásica”, grupo de maior capacidade e consumo, passa dos 7,05 kwanzas (0,018 euros) para 14,74 kwanzas (0,036 euros).

Já a categoria indústria, que anteriormente pagava 7,05 kwanzas/quilowatts agora paga 12,83 kwanzas (0,033 euros), enquanto o comércio e serviços, que pagavam 14 kwanzas passam agora a integrar a categoria doméstica trifásica.

Para o também porta-voz da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), o Estado “deve garantir a energia e água potável a todos os cidadãos com uma tarifa justa”.

“O que acontece é que o mesmo povo que agora vê a tarifa da energia a subir, é o mesmo que não tem água e tem de fazer recurso a cisternas que são caríssimas, e já sabemos que com energia muitos serviços inerentes também vão subir”, apontou.

“E isso vai ser um peso nas costas da população”, observou o bispo católico angolano, referindo que, com “uma gestão séria e sólida, Angola tem muitos recursos em que podem ajudar o seu desenvolvimento”.

Belmiro Tchissengueti entende que Angola precisa de uma “gestão consolidada” dos seus recursos “e não com pressa de fazer o dia para noite, porque isso só abre espaço à corrupção, desvios e roubos que temos assistido por todos os cantos”.

As receitas de matérias-primas, “que a gente não sabe onde vai”, são recursos disponíveis, frisou o bispo católico, considerando que essas verbas “poderiam ajudar um pouco na melhoria da qualidade de vida das populações”.

“Mais do que esse recurso desenfreado aos impostos quase que a sufocar os pequenos empresários”, atirou.

“O país está a chegar ao limite e, é preciso lembrar que a própria revolta colonial, entre outras coisas, foi por causa dos impostos. Há que se ter em conta esse lado, para não estarmos aqui a cometer falhas atrás de falhas só para agradar as organizações internacionais, mas ter o povo a sofrer”, concluiu.

O Ministério das Finanças de Angola refere que esta atualização dos tarifários dos serviços de eletricidade, que deveria vigorar desde o passado dia 24 de junho, decorre de uma medida estrutural de gestão macroeconómica, que passa por garantir que os subsídios beneficiem efetivamente os segmentos mais vulneráveis da população, contrariamente ao que vinha sucedendo até agora.

Publicação da autoria de Fonte Externa:
Lusa
15/07/2019

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